teatro

Outros tempos hoje

13.07.2011

Ano passado Pedro Freire – jovem diretor de cinema, teatro e televisão (tem quase minha idade) – me chamou para fazer o projeto de venda de uma peça de teatro para captar recursos. Me falou da dificuldade de diálogo com os designers, coisa que muita gente reclama, e me falou da paixão pela obra do artista alemão Gerhard Richter, que ele queria usar como referência visual para o nosso trabalho. Não conhecia Richter, conheci e passei a admirar sua obra. Também me falou pela sua paixão pela obra de Harold Pinter, em especial pelo texto de Old Times, que em português foi traduzido (pelo próprio Pedro) como Outros tempos. Quando ele me falou sobre a história, lembrei logo do filme Mulholland Drive do David Lynch.

Corte para março deste ano. Pedro me ligou falando que a peça tinha sido contemplada pelo FATE (Fundo de Apoio ao Teatro da Prefeitura do Rio). Então começamos o processo para fazer o projeto oficial. No elenco estavam Cristina Flores, Paula Braun e Otto Jr. Pedro marcou uma reunião-ensaio com a equipe da peça, onde pudemos escutar os atores passarem o texto, ainda bem cru na interpretação. A partir daí pensamos nas fotos, marcamos e elas foram feitas, aliás muito bem feitas, pelo Dalton Valério. Depois de tanto fotografar e escolher, optamos por usar uma foto dos três atores desfocados. Tudo que escolhemos foi muito pensado e repensado, sempre levando em consideração o texto da peça.

Fui assistir à pré-estreia. A peça mostra uma aparente situação corriqueira, onde uma velha amiga vai visitar um casal, e aos poucos a trama vai se desenvolvendo de uma forma que tudo começa a ficar esquisito, e difícil de entender que caminhos a história toma, se é pela memória dos personagens, se é pelo tempo, se é tudo um sonho. É aí que fica interessante, e você sai de lá com a cabeça tentando montar sua própria versão da história.

Mesmo depois de ter lido o texto, assistido a dois ensaios e estar o tempo todo conversando com Pedro, só assistindo a atuação pra valer, no cenário, com luz, consegui entender melhor o texto, rir dele, achar triste, ficar intrigado de verdade. Saí de lá pensando na mágica que é transformar um texto em uma história encenada. Como aquele trabalho todo, diário, exaustivo, de ver e rever e rever o texto, produz essa mágica, traz o texto à tona, à luz.