arquitetura

As segundas impressões de um design arquitetônico

08.07.2008

Do dia que nasci, até hoje, a arquitetura esteve presente, de alguma forma, na minha vida. A começar pelo meu pai, Demetre Anastassakis, arquiteto e urbanista, que nos meus primeiros anos de vida projetou e construiu uma casa para a família morar. Lembro de irmos sempre ver a obra da casa, com minha mãe e meus quatro irmãos. Ficávamos impressionados, e isso ficou gravado em nossas mentes como sendo mágica, o fato de entre uma visita e outra à obra, o espaço físico se transformar por completo. Fiquei com aquilo gravado na minha cabeça por muito tempo como uma mágica.

Além das visitas a obra da nossa casa, meu pai costumava nos levar para outras obras. E naturalmente, comecei a desenhar plantas de casas e mapas de cidades inventadas. Apesar de meu pai não ser nem um pouco autoritário, e achar que pai não escolhe a profissão do filho, ficava muito animado e dizia a todos que seu filho seria urbanista.

Na adolescência fui trabalhar com meu pai, me aproximando mais ainda da arquitetura. Mas na hora de escolher a profissão, a vontade de desenhar carros falou mais alto e entrei para o curso de desenho industrial. Tenho alguns amigos que decidiram pela arquitetura.

Com esta profissão rodeando nossas vidas, era natural, e até mais pelas pessoas que não estavam tão ligadas a ela, que se falasse em Oscar Niemeyer.

Sempre tive uma impressão que hoje posso chamar de “preconceituosa” da obra de Oscar Niemeyer. Aquela famosa visão que alguns amigos, principalmente os que faziam arquitetura, incentivavam: “O que o Niemeyer faz não é arquitetura. Ele não resolve espaços arquitetônicos, ele faz esculturas em que se pode entrar dentro”. Esta tese diz que Niemeyer faz rabiscos e diz que é arquitetura, que tudo pode ser muito bonito, mas, do ponto de vista arquitetônico, é um zero à esquerda.

No mês passado fui assistir à exposição “Oscar Niemeyer: produção contemporânea 1996-2006”, com curadoria do professor Lauro Cavalcanti, e por ser seu aluno, tive a oportunidade de ter o curador como guia. Apesar de a exposição focar na produção recente de um arquiteto que produz há 73 anos, pudemos ter uma visão geral de sua obra. E as impressões começaram a mudar.

Ainda na exposição comecei a ver que aquele papo de “o que o Niemeyer faz não é arquitetura” era uma meia verdade. Meia verdade porque apesar de ser uma visão preconceituosa e conter mentiras, não deixa de ser verdade também. O que não é necessariamente ruim. Oscar Niemeyer faz sim “esculturas” com sua arquitetura. Começa sim o projeto com rabiscos, mas pude ver que é extremamente metódico no que faz, e este é apenas o começo do processo projetual adotado por ele. A partir dos “rabiscos” Niemeyer elabora um projeto que então é desenvolvido por uma equipe, e ao final surge um projeto arquitetônico sim, mas com personalidade, com traços artísticos.

Também me impressionou, e me ajudou mudar minha visão acerca deste grande profissional, o texto de Niemeyer em que ele fala de seus pensamentos. Nos deixa entender que ele apenas quis ser contemporâneo, fugindo das arquiteturas neoclássica, neocolonialista e eclética. Ora, o grande argumento de Niemeyer é o concreto armado. Ele nos diz que não podíamos ficar imitando o passado, quando os avanços tecnológicos nos permitiam andar pra frente, vislumbrar outras formas, outros desenhos. E o concreto armado é como unha e carne com a obra de Oscar Niemeyer. Um não pode estar dissociado do outro. Niemeyer quis explorar as possibilidades desta tecnologia, criando uma arquitetura sinuosa, fugindo dos ângulos retos e da imposição de um mundo ortogonal, criando assim um “espetáculo arquitetural”. Arquitetura esta, que por não ser baseada em questões funcionalistas, não deixa de ser boa e importante para o desenvolvimento da arquitetura no mundo, pelo contrário, muda o rumo desta por completo, criando paisagens contemporâneas para um mundo que ora vivia do passado, ora criava sem nenhuma inspiração, seguindo unicamente à funcionalidade das propostas. Publicado originalmente em Maio 2007 no site www.philippeleon.com